Leitor%20Crítico

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Rumo ao altar

parte 2

Às dez horas estava sentada na praça da cidade, balançando as pernas como uma colegial e tomando sorvete calmamente. Achou que era merecido, apesar da dieta. Às duas da tarde entrava no salão para o seu dia de noiva, de onde saiu passando das sete devido a um imprevisto que houve com o vestido. - Está me achatando. – resmungou percebendo que os seios estavam amassados. - Acho que ficou apertado. – respondeu a assistente do salão, olhando por sobre os óculos. - Não é possível! Eu experimentei esse vestido ainda ontem. - É, mais está apertado. - Ah, meu Deus, agora não tem mais jeito! - Liga para a costureira. – sugeriu a assistente. - Pra que? – Celine perguntou com ar de espanto. - Talvez ela possa dar algum jeito. - Por telefone??? – perguntou cética. - ??? - Liga para a costureira! – falou Celine, em tom imperativo, como se esse fosse seu último recurso. A assistente se afastou para ir à recepção ligar e em menos de três minutos voltou com a resposta. - O que ela disse? - Que não precisa se estressar com isso. O noivo nem vai reparar. Celine teve vontade de gritar, mas apertou a própria garganta. De frente a igreja, ainda incomodada com o vestido apertado, a jovem suspendia o buquê para cobrir o colo, tentando esconder o defeito. - Desça um pouco esse buquê. - Falou em voz baixa a amiga que estava encarregada de organizar a entrada. Quando finalmente a noiva entrou ao som da marcha nupcial tocada pela violinista, estava tensa sem conseguir olhar a sua volta, mas ainda pode ouvir uma voz feminina em seu ouvido: - Sorria! O noivo está no altar. Sorriu aliviada. Era verdade! Mesmo que houvessem contratempos, o principal, estava em seu devido lugar.

Por Clicia Pinto, em 10/04/12

Rumo ao altar

parte 1

A semana tinha sido de intenso corre-corre para Celine. Embora tivesse começado o planejamento prévio dois anos antes e o oficial um ano antes, ainda havia algumas coisas que só poderiam ser acertadas nos últimos dias. Havia contado com ajuda de amigas, pois como era a primeira das irmãs a se casar, ninguém ainda na família tinha passado pela experiência. Na véspera, contou com a ajuda de Rosa, amiga dos tempos de colegial, que com boa vontade e um carro a disposição, levou as lembrancinhas para o salão e outras coisas mais, depois de ter se desentendido com o dono da loja por causa de uma vaga para estacionar: - Pare o carro aqui em frente, dona! – o dona já foi suficiente para aborrecer Rosa, que apesar de estar beirando os quarenta, ainda solteira, esperava arranjar um marido. - Aqui não tem como estacionar, moço! – retrucou aborrecida. - Se a senhora for andando com essa caixa cheia de vidros, vai acabar quebrando as lembrancinhas. - Eu sei muito bem o que estou fazendo. Celine olhava de um para outro. Sabia que naquela rua estreita era inviável estacionar, mas sabia do risco que era andar por mais de cem metros carregando caixas frágeis de papelão contendo todas as lembrancinhas do casamento, por uma rua estreita, com calçadas irregulares. - Se cair ?? – preferia nem pensar. No dia seguinte Celine acordou antes das seis da manhã. Na verdade não havia conseguido dormir na noite anterior. Cochilava um pouco e logo aparecia em sua frente um vestido rosa, em vez de branco; bota, em vez do scarpin delicado; um bolo que mais parecia uma torre de Pisa. Por final, na última tentativa de dormir, sonhou que o pastor não deixou a violinista tocar, e insistiu ele mesmo em cantar numa voz desafinadíssima, o que espantou o noivo fazendo-o sair em desabalada correria. Celine desistiu então de dormir. Preferiu levantar e começar a resolver pequenas pendências.

Por Clicia Pinto, em 00/00/00

Um tiro no escuro

parte 2

Por fim, com o barulho da moto se fazendo mais próximo, resolveu correr, mesmo que fosse em direção a sombra que não sabia de quem ou do que ser, mas não tinha muitas alternativas. Talvez, pudesse entrar em algum quintal de muro mais baixo, pensou; mas então percebeu que a sombra tomava forma diferente. Um braço sendo estendido? Ouviu um disparo e caiu no chão molhado, próximo a uma imensa poça de água. Estava consciente do barulho a sua volta, e viu quando a moto parou ao seu lado. - Ele vai descarregar a arma em mim, Senhor, não permita que isso aconteça. Eu quero viver!!!- sempre escarnecera dos clamores de sua mãe, mas na hora do aperto, pensou que apenas o Deus que sua mãe clamava poderia livrá-lo. -Capitão!- ouviu então uma voz em tom brando, mas firme. Pode então abrir os olhos e estranhamente percebeu que não sentia dor. - Capitão, o senhor está bem?- insistiu a voz. Olhou então para o jovem agachado ao seu lado, alto, louro, usava uma jaqueta de camurça. Apenas quando viu a cicatriz sobre a sobrancelha, conseguiu reconhecer o irmão de sua esposa, também militar. Erguendo-se, percebeu que não muito longe de onde estava, havia alguém sentado no chão, chorando. Algumas pessoas acenderam as lâmpadas de suas casas, mas não ousaram sair à rua. -Yoli ficou preocupada quando se deu conta de que esquecera a pistola. E como a hora avançava pediu que eu saísse a sua procura. Ramom deu um suspiro de alívio por saber que esquecera a pistola em casa, e por saber que não havia chegado o dia de sua morte. Em seguida olhou para o cunhado e depois para o jovem a frente. -Achei que ele fosse atirar no senhor, atirei antes. Não sei quem é ele. - Ramom fez um gesto de aprovação. Aproximaram-se, então cautelosamente, o soldado apontando a arma para o jovem, miúdo e franzino, na verdade, não devia ter mais de quinze anos. Ao perceber a proximidade dos dois homens o garoto que já estava com a camisa enrolada no pé estancando o sangramento, cobriu a cabeça com as mãos e implorou que não lhe fizessem mais nada. Não era bandido, não era! Viciado, sim, e às vezes, sem sono, esperava alguém passar para ver se conseguia um pouco de pó. Interrogado sobre o que tinha nas mãos, amostrou apenas um cachimbo. -Achei ali no muro, e ia arremessá-lo para o alto quando o senhor atirou.

Por Clicia Pinto, em 07/02/12